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Helicicultura - A criação de escargot ou caracol no Brasil

A criação de escargot ou caracol, no Brasil, teve início na década de setenta e de uma maneira mais intensiva e comercial a partir dos anos oitenta, com criadores dos Estados do Paraná, Rio de Janeiro e São Paulo.
Nesta época, não havia muitas informações a respeito, apenas versões apressadas de manuais franceses, que acabavam por incorrer em muitos erros e orientações que não se adaptavam as condições locais. Agora, na década de 90, a febre de se criar escargots ressurgiu em vários pontos do país e a procura por conhecimentos e uma tecnologia de criação recomeçou.

Neste sentido, a Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, por estar situada numa região onde se concentravam muitos heliários (criatórios de escargots), começou a ser solicitada pelos criadores em busca de mais informações sobre a atividade.
Assim, através do Departamento de Nutrição e Avaliação do Animal, do Instituto de Zootecnia, deu-se início, há sete anos, as pesquisas sobre a helicicultura (criação de escargots), com o objetivo de se definir um conjunto de práticas e técnicas de manejo que melhor se adaptasse as condições tropicais do pais.

O escargot é um molusco terrestre da espécie Hélix, sendo os mais conhecidos o Petit gris, o Gros gris, o Gros blanc e o Gigante chinês. De hábitos noturnos, o escargot precisa de condições ambientais favoráveis para viver: temperatura entre 16 e 25° C, umidade relativa mínima de 80% e fotoperíodo. Durante o dia procure abrigos úmidos e escuros, protegidos de ventos. A temperatura abaixo de 10°C, geralmente entra em hibernação, acima de 25°C entra em estiva e, abaixo de 0°C, a água dos seus tecidos congela, ocasionando sua morte.

Segundo o zootecnista Edson Assis Mendes, professor e pesquisador da UFRRJ, no Brasil, durante vários anos, houve uma predominância da espécie Petit Gris (Hélix aspersa aspersa) devido ao caráter empírico das criações. Entretanto, quando trabalhos científicos começaram a mostrar resultados, a espécie Gros gris (Hélix aspersa máxima) ganhou espaço e atualmente é produzida pela maioria dos helicicultores. Com tecnologia apropriada, o Gros gris já é abatido com 10 gramas de peso vivo e idade entre 100 e 120 dias, confinados em caixas de plástico ou madeira, em ambiente com temperatura media de 25°C e UR mínima de 80%, alimentados com ração balanceada e ausência total de terra, exceto nas caixas de matrizes, onde coloca-se copos pare desova com 2/3 de terra.

As pesquisas desenvolvidas pelo professor Edson e sua equipe originaram um projeto piloto para implantação de uma helicicultura adequada a pequenos espaços, permitindo uma produção de 58 kg de peso vivo/m2 ao ano, com 60% de rendimento de carcaça, e ainda, após a estabilização do rebanho a partir da 24a semana, o início da comercialização de matrizes selecionadas. Outras conclusões que adequam a helicicultura pare nossas condições ambientais são:

O ambiente ideal para o escargot confinado é conseguido com a utilização de umidificadores, desenvolvidos pelo zootecnista José Luiz da Cunha Machado, e/ou condicionador de ar. Nos laborat6rios da UFRRJ, apenas usando umidificador, consegue-se manter as condições ambientais necessárias.

A densidade máxima recomendada e de 400/200/100 animais por m2 nas 1a, 2a e 3a fases respectivamente. Um aumento muito grande de população induz o escargot a abandonar a concha causando sua morte, a roer sua própria concha ou a dos outros animais. Comportamento este que pode também estar ligado a deficiência de cálcio.

A nutrição indica o uso de ração balanceada com teores de 18% de proteína bruta, 3100 kcal/kg de energia bruta e relação Ca/P de 16:1. Níveis estes conseguidos quando se utilize a seguinte receita: 70% de fubá de milho; 27% de farelo de soja; 1,5% de farinha de ostra; 0,6% de farinha de osso calcinado; 0,4% de premix e 0,5% de sal fino. Sendo que a farinha de ostra deve ser suplementada em recipiente a parte.

Quanto a reprodução, o escargot, tem uma copula que dura até 12 horas. A postura dos ovos e feita em copos de vidro ou plástico rígido, preparados pare este fim, contendo 2/3 de terra fofa e úmida. O ovos devem ser transferidos para outros copos com terra esterilizada para evitar sua contaminação pela mosca do cemitério, e após 14 dias ocorre a eclosão de 75 a 120 filhotes. Entretanto, nos laboratórios do Instituto de Zootecnia vem sendo conseguido, com sucesso, a eclosão em ausência total de terra, apenas mantendo-se as condições ambientais ideais. Experiência, essa, que já vem sendo conseguida, também na França.

Criar escargots no Brasil tem futuro promissor. Atualmente toda a produção do país, em torno de 25 toneladas anuais, é consumida internamente e a tendência e aumentar a cada dia com a popularização do uso culinário. O mercado externo também é amplo, especialmente na Europa. Na França, por exemplo, são consumidas mais de 45 mil toneladas anualmente.

Fonte: www.cpt.com.br.

Curso de Helicicultura (Formação teórica e práctica) - Agosto 2015


Olá amigos.
Hoje trazemos boas notícias para os amantes da helicicultura que pretendam receber formação nesta área quer seja por interesse pessoal ou para se iniciarem na produção de caracóis.



A formação que vai acontecer já no próximo mês de Agosto terá lugar na região de Lisboa, mais concretamente em Odivelas, e terá a seguinte constituição:

  • Tipo: Curso teórico com visita à unidade de produção. 

  • Carga horária: 25 horas (21 teóricas + 4 práticas) Divididas em 5 sessões de 5 horas cada 

  • Objectivo: No final do curso os formandos deverão saber efectuar as operações relativas ao maneio alimentar, reprodutivo, higienosanitário e produtivo de uma exploração helicícola. 


Esta formação vai munir o novo Helicicultor dos conhecimentos obrigatórios para produzir caracoleta de alta qualidade com custos baixos de produção. 

Como vai ser? Nesta formação vão ser abordadas todas as temáticas fundamentais à gestão de uma unidade helicícola para engorda de caracoleta. Vai ficar a saber todos os aspectos relativos à identificação dos hábitos e morfologia dos animais, passando pela preparação dos parques, cálculo de dietas, reprodução, cuidados higienossanitários, controlo de pragas, engorda, apanha, purga, embalamento e transporte

Curso de Helicicultura (Formação teórica e práctica) - Agosto 2015

Caracóis portugueses estão na moda

Produção já ultrapassou as 500 toneladas por ano e dá três milhões de euros.
A produção de caracóis em Portugal ultrapassou as 500 toneladas por ano. Segundo os dados divulgados esta quinta-feira na Lourinhã, no I Encontro Nacional de Helicicultores, está em causa um rendimento na ordem dos três milhões de euros.
De acordo com Paulo Geraldes, presidente da Cooperativa dos Helicicultores, há em Portugal cerca de 150 produtores espalhados de norte a sul do país. Este número equivale a uma área de produção de 300 hectares.
Nos últimos três anos o aumento de produtores foi na ordem dos 200% e deveu-se em parte ao financiamento comunitário. Este apoio por parte da União Europeia tem sido fundamental para a divulgação do produto a nível internacional e consequente incremento da produção e consumo interno.
Falamos de 13 mil toneladas de caracóis. Este é o número do consumo desta iguaria em Portugal. E embora seja um valor considerável, o alvo dos produtores é o mercado da exportação. Quando questionado sobre a razão para “ocupar” o mercado internacional com caracol português, Paulo Geraldes indica que “a qualidade do nosso produto” é de facto o elemento-chave.
Actualmente os países que fazem parte da lista de exportação são a Espanha, França e Itália e tem como mercados emergentes o asiático e o árabe. Geraldes volta a referir a qualidade como factor diferenciador “na promoção e aposta da comercialização internacional da helicicultura”.
Os mais jovens também estão interessados na produção de caracóis. Paulo Geraldes refere que os agricultores mais jovens são os que mais têm investido na área e mostram mais vontade de expandir e melhorar a qualidade do caracol português. “Os jovens agricultores fazem neste momento uma série de opções e análises dessas opções e alguns enveredam por outras áreas, como a pêra abacate, na zona sul, e os pequenos frutos, as ervas aromáticas, os cogumelos e alguns pela helicicultura”.

Caviar de caracol produzido no Algarve desafia chefes

O chamado "caviar branco", que mais não é que ovas de caracol e cujo preço pode atingir os 1.500 euros por quilograma, está a ser produzido no Algarve e a constituir um novo desafio para os chefes da alta cozinha.

O preço elevado deve-se à raridade do produto, já que cada caracol produz em média cerca de quatro gramas, uma vez por ano, e nem todos os ovos apresentam a qualidade exigida para a chamada cozinha 'gourmet'.
Caviar de Caracol Algarvio
"O nosso produto não é transformado, é puro e mantém-se puro desde a recolha até ao seu embalamento. Temos um pequeno segredo que nos permite ter o produto inalterado e quebrar o ciclo de crescimento do caracol", disse Altair Joaquim, sócio-gerente da CaviarBlanc, empresa responsável pela produção destas ovas, frisando que "é esse segredo" que garante a diferença e a qualidade da marca algarvia, produzida perto do concelho de Olhão.
Originalmente desenvolvido em França, o caviar de caracol começou a ser produzido em Portugal há já alguns anos, sendo toda a produção dirigida à exportação.
Altair Joaquim disse que a ideia de negócio da "CaviarBlanc" no Algarve surgiu há cerca de quatro anos, depois de se "debruçar sobre informações" que o pai trouxera de França sobre helicicultura, processo de criação e exploração de caracóis da espécie Helix Aspersa Maxima.
Há dois anos, a ideia consolidou-se e o projeto de Altair Joaquim foi aprovado e financiado por fundos comunitários no âmbito do PRODER, permitindo a construção de toda a estrutura necessária para a produção de caracóis, e a recolha, tratamento e acondicionamento dos ovos.
O responsável pela CaviarBlanc prevê que a produção de ovos de caracol possa atinja os 200 quilogramas por ano, depois da conclusão de todos os investimentos previstos [uma nova maternidade], o que deverá ocorrer até ao final deste ano.
Para escoar o produto, o empresário aposta nos mercados europeu e asiático, frisando que o grande objetivo é atingir "uma forte implantação nos Emirados Árabes Unidos e em Macau".
"Gostava de dizer que o nosso alvo é o mundo inteiro, para dar a provar o produto a toda a gente. Contudo, neste momento, focaliza-se em distribuidores dos produtos de alta qualidade a nível 'gourmet' e no setor da alta cozinha", explicou o produtor algarvio.
Em Portugal, a estratégia de promoção do "caviar branco" passa pelo contacto direto com chefes cozinheiros prestigiados, tendo conseguido que o produto começasse já a ser utilizado por Luís Mourão, responsável pelo restaurante Al Químia, do Epic Sana Algarve Hotel, um hotel de cinco estrelas de Albufeira.
"É um caviar diferente que não é utilizado com frequência, mas tem tido muito boa aceitação por parte dos clientes. Tem sido uma experiência interessante", disse Luís Mourão.
Apesar da boa reação que tem tido dos clientes, Luís Mourão reconheceu que, por vezes, se disser que se trata de ovas de caracol, o cliente "fica um pouco reticente". Se disser que é caviar branco, "fica bem, sai melhor".
Em plena cozinha, Luís Mourão explicou que a grande diferença entre o caviar tradicional de esturjão e o caviar de caracol está no sabor.
"Enquanto o outro [esturjão] sabe mais a mar, este tem um sabor a terra, um bocadinho mais salgado. São coisas completamente diferentes", descreveu.
'Escargot' com caviar branco e pão de pistacho, 'foie gras' -- fígado de pato ou ganso - temperado com caviar branco em vez da tradicional flor de sal e uma margarita onde o caviar branco substituiu novamente o sal são algumas propostas apresentadas por Luís Mourão e a sua equipa.
O chefe disse ter sido fácil associar os ovos de caracol aos pratos do seu menu que têm 'escargot' e que as características do próprio caviar propiciam a sua conjugação com outras iguarias.
A empresa 'CaviarBlanc' de Olhão está a direcionar a divulgação e comercialização do produto para os chefes de cozinha, disponibilizando cada frasco de 28 gramas por 42 euros.

Caviar de caracol algarvio a 1500 euros o quilo

Jovem de 29 anos aposta em negócio inovador e prepara-se para exportar para China e Dubai


Aquele que poderia ser considerado o jovem mais empreendedor do Algarve, Altair Joaquim, de 29 anos, está a apostar forte na criação e produção de “caviar” de caracol, na zona de Olhão, e já se prepara para exportar para a China e o Dubai. 
As ovas são consideradas super exclusivas já que são bastante raras. 
Um quilo pode valer mais de 1500 euros, conta o jovem algarvio, que há quatro anos criou a ‘Caviar Blanc’ para se dedicar a este “produto inovador” e com um enorme potencial. Altair sonha tornar o Algarve num local de grande relevo na produção deste tipo de caviar…

Produção de caracóis rende três milhões e está a crescer em Portugal

A produção de caracóis em Portugal ultrapassa as 500 toneladas/ano e rende três milhões de euros, mas pode crescer muito se multiplicar as exportações, segundo dados divulgados hoje na Lourinhã no I Encontro Nacional de Helicicultores.

A informação disponibilizada aponta para a existência de centena e meia de produtores, de norte a sul do país, e 300 hectares de área de produção.

Entre 2012 e 2013, o número de produtores aumentou mais de 200%, graças em parte ao financiamento comunitário de projetos.

Antes de 2009, estima-se, existiriam apenas cinco produtores em todo o país, mas a procura por áreas de negócio alternativas à agricultura tem vindo a atrair investidores e em 2013 os produtores eram já mais de 60.

A Helixcoop, a única cooperativa de helicicultores a nível nacional, tinha 13 associados em 2011, quando foi constituída, e hoje possui cerca de 30. 

Em Portugal, são consumidas por ano cerca de 13 mil toneladas de caracóis, de várias espécies, por ano. 

Dados de 2014 apontam para mais de 500 toneladas produzidas e três milhões de euros faturados. Desta produção, 80 a 90% tem como destino o mercado nacional, mas em 2014 o país importou 1,1 toneladas, adquiridas a um preço médio de um euro por cada quilograma.

Em contrapartida, exportou 22,6 toneladas, vendendo o produto a um preço médio de três euros o quilograma e tendo como principais mercados a Espanha, França, Itália, os grandes concorrentes de Portugal no mercado externo. Entre os mercados emergentes estão países asiáticos e árabes.

Os helicicultores querem, por isso, valorizar a produção nacional, combatendo a entrada de outras espécies, como a "caracoleta de Marrocos", vendida a baixos preços e sem grande qualidade, e apostando na exportação e na transformação do produto, por exemplo, com a venda de miolo de caracol ou pratos já confecionados.

"É um produto com grande valor nutricional, nomeadamente proteico, e pode substituir muitas carnes, por ter baixo teor de gorduras", explicou Paulo Geraldes, presidente da Helixcoop, que tem sede na Lourinhã.

Os caracóis têm também compostos bioativos que previnem o cancro, motivo pelo qual os ovos e a baba de caracol são procurados pela indústria farmacêutica. O helicicultor adiantou que 1 a 2% da produção tem já esse destino.

A Helixcoop está a desenvolver um projeto para criar a primeira organização de produtores do país, no sentido de organizar a produção e criar canais de comercialização, não só junto de cadeias de hipermercados nacionais, que já absorvem 15 a 20 toneladas, bem como no estrangeiro.

LUSA

Boa hipótese para se iniciar na criação de caracóis


Um leitor teve a simpatia de nos informar de um anúncio no OLX em que uma empresa de criação de caracóis, além da venda de alevins e reprodutores, aceita dar formação a quem pretenda iniciar-se na helicicultura mediante condições a combinar.

Como as formações nesta área são muito raras, e normalmente bastante caras, fica a dica para uma boa oportunidade através da qual, se optarem por iniciar-se, poderão ter a vantagem de conhecer profundamente a origem e qualidade dos vossos próprios reprodutores e alevins.


A empresa situa-se em Barcelos e os interessados podem contactar através do telemóvel  911 580 716.

 Quer iniciar uma criação de caracóis ?







Criação de escargots no Brasil é um investimento lucrativo

Aprenda as técnicas de criação e seja um diferencial no mercado


Escargots têm baixo teor de gordura e colesterol

A criação de escargot, também conhecida como helicicultura, destinada ao comércio no Brasil é recente, data do início da década de 80. Antes disso, os moluscos eram criados como atividade meramente esportiva, por hobby. A necessidade de direcionar esse produto ao comércio é oriunda de uma demanda cada vez mais maior em relação a esse tipo de alimento, nobre e saudável. A carne de caracol é rica em diversas substâncias, como proteína, cálcio, ferro, magnésio e sódio. Quando comparada a outras fontes proteicas, ela ainda se destaca pelo seu baixo teor de gordura e colesterol.

Como criar escargots

O curso Escargots: A Tecnologia Correta de Criação, elaborado pelo CPT – Centro de Produções Técnicas, ensina como proceder com o planejamento e a instalação desse negócio, como deve ser feito o manejo e o comércio dos moluscos, além de explicar em detalhes como ocorre a reprodução e a prevenção de doenças em escargots. O professor Edson Assis Mendes e o zootecnista José Luiz Machado, ambos do Instituto de Zootecnia da UFRRJ – Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, elencam as espécies de escargots e as características que qualificam cada uma delas.

Instalações da helicicultura

Escargots são ricos em proteína, cálcio, ferro, magnésio e sódio

A instalação necessária para que a criação desses moluscos seja iniciada vai depender de diversos fatores, como a quantidade de animais que se pretende criar, o clima e o relevo do local. É imprescindível que o local onde serão depositadas as caixas de criação seja bem fechado para proteger os caracóis de possíveis predadores e para facilitar o controle da temperatura e da umidade. Mendes e Machado citam que um umidificador é suficiente para ambientes de pequenas criações. No entanto, ele pode ser substituído por borrifadores ou bicos aspersores de água.

Sistemas de criação


O professor e o zootecnista elencam e caracterizam os três tipos de criação de moluscos possíveis:
- Sistema extensivo: quando os escargots são criados ao ar livre;
- Sistema semi-intensivo: quando a eclosão dos ovos ocorre em ambiente controlado, mas os moluscos jovens são levados para o ambiente externo depois de 6-8 semanas;
- Sistema intensivo: quando os caracóis são mantidos em cativeiro.

Caixas de criação

Os animais e seus excrementos não lançam mau cheiro no ambiente de criação

As caixas de criação, segundo Mendes e Machado, devem ser mantidas a uma certa distância do chão a fim de facilitar o manuseamento. Esses pés, ou estacas, precisam ser revestidos com um “avental” de plástico ou metal para impedir que possíveis predadores tenham acesso aos caracóis e os ataquem. Essas caixas de criação, normalmente quadradas ou retangulares, não podem ser depositadas em locais que recebam incidência direta de sol e chuva. É recomendado que sejam feitas pequenas aberturas no fundo das caixas para que o excesso de água não se acumule em seu interior. A terra, escura e crivada, deve ser depositada até uma altura de 18-25 cm.

Considerações sobre a comercialização


Mendes e Machado citam as possibilidades de comercialização que podem ser exploradas pelos criadores de escargots:
- venda de escargots vivos para indústrias de conserva;
- venda de carne congelada;
- venda de pratos prontos (congelados ou não);
- venda de conchas para artesanato;
- venda de conchas para produção de ração animal;
- venda de iscas vivas para pescaria.
O mercado consumidor de escargots é formado por restaurantes, hotéis, gourmets shops, supermercados, famílias, indústrias de conserva, exportadores, decoradores, arquitetos, boutiques, indústrias de ração e pesqueiros do tipo “pesque e pague”.

No sistema extensivo, os moluscos são criados ao ar livre

Vantagens da criação de escargots

Entre as vantagens da criação de escargots, pode-se destacar a possibilidade de executarmos tal atividade em pequenas propriedades cujo manejo seja oriundo da mão de obra familiar, tornando-a menos custosa. Além disso, ela dispensa tecnologias avançadas; os animais e os seus excrementos não lançam mau cheiro; as instalações e o manejo são simples, bem como as ferramentas e os equipamentos necessários são baratos.

Por Camila Guimarães Ribeiro

Empresa de Helicicultura Biojogral (Reportagem RTP2)

Uma reportagem bastante interessante acerca da constituição e do funcionamento da empresa Biojogral, dedicada à helicicultura e com uma vertente para prestação de formação nessa área.


Ovos de Caracol - O "Caviar Branco"

É conhecido como "caviar branco" e vendido a cerca de mil euros o quilo.
Trata-se do ovo de caracol que está a ser estudado pela Universidade do Algarve. Comentários de Isabel Carvalho, coordenadora "Food Science Lab".


Formação em Helicicultura



O termo “helicicultura” deriva dos vocábulos latinos “Helix” (Tipo de caracol) e “Cultivare” (Cultivar). 
A definição consensual de helicicultura é “Criação sistematizada em cativeiro, com fins comerciais, de caracóis terrestres comestíveis.” 

Vários leitores nos questionaram acerca da realização de acções de formação para helicicultores.
O nosso conselho é invariavelmente o de que procurem contactar produtores já estabelecidos que possam proporcionar-lhes essa formação, sendo que o ideal seria o formato de estágio com integração temporária nas equipas de trabalho.
Não há nada melhor do que aprender 'no terreno', na prática, literalmente com as mãos na terra.


Porém, quando se pretende complementar o conhecimento prático com uma base sólida de informação teórica, a estrutura ideal para a formação em helicicultura será sempre aproximada da que a seguir se elenca:


Objectivos

  • Efectuar as operações inerentes ao maneio alimentar, reprodutivo, higio-sanitário e produtivo de uma criação de caracóis.
Conteúdos

  • Importância sócio-económica
  • Produção e consumo
  • Espécies comerciais utilizadas, características e distribuição geográfica
  • Morfologia externa e interna
  • Costumes do caracol - diários, anuais, hibernação e período estival
  • Enquadramento legal das explorações de helicicultura
  • Registos oficiais
  • Sistemas de criação de caracóis
    • Sistema de criação de ciclo biológico completo
    • Sistema de criação misto
  • Instalações e equipamentos
    • Instalações - naves, estufas, parques, refúgios, salas de reprodução, cria e engorda; organização do espaço e circuitos
    • Características do terreno
    • Equipamentos - de aquecimento, de alimentação, de iluminação, de reprodução, de postura, de limpeza e desinfecção; cercas dos parques; sistemas anti-fuga
  • Maneio alimentar de caracóis
    • Necessidades nutritivas e alimentares dos caracóis
    • Tipo de alimentação e culturas para os caracóis
    • Operações relativas à alimentação
      • - Cálculo de dietas
      • - Operações de preparação e distribuição de alimentos
      • - Distúrbios alimentares – identificação e intervenção de urgência
  • Maneio reprodutivo de caracóis
    • Selecção de reprodutores
    • Côrte e cópula
    • Reprodução e factores condicionantes - luminosidade, temperatura, humidade, carga biótica, raça e idade
    • Postura de ovos - períodos e quantidades; factores condicionantes da postura
    • Incubação e eclosão
    • Operações relativas à reprodução
  • Maneio higio-sanitário de caracóis
    • Operações de limpeza e higienização das instalações, equipamentos e animais
    • Operações de tratamento - doenças, desparasitação
    • Operações de eliminação dos predadores
  • Maneio produtivo de caracóis
    • Incubação e eclosão dos ovos
    • Gestão da maternidade e duração deste período
    • Engorda
      • - Programa alimentar e densidade de caracóis
      • - Operações de alimentação e engorda
    • Recolha dos caracóis - tamanho e peso adequado
  • Comercialização - formas de comercialização do produto, normas de higiene e segurança alimentar, transporte, embalagem e rotulagem
  • Registos e consulta de informação
  • Tratamento de resíduos da exploração
  • Boas práticas de segurança, higiene e saúde no trabalho

Segurança alimentar na produção de caracóis

Controlo da alimentação de base vegetal


Essencialmente dois motivos levam a que alguém decida dedicar-se à helicicultura.
O primeiro prende-se com o interesse em proteger uma determinada espécie e desta forma melhorar aquilo que a natureza nos oferece.
O segundo motivo é de ordem económica, o que faz com que muitos tenham a ideia de que a helicicultura é um negócio muito rentável. Contudo, pode não ser, pois é uma arte de difícil execução. O caracol tem como base um ecossistema frágil e actualmente enfrenta alguns perigos, como a poluição ambiental, o excesso de procura e as formas de agricultura agressiva.
A criação de caracóis comestíveis em cativeiro (Helix Aspersa Máxima e Helix Aspersa Muller) está a evoluir lentamente em Portugal e promete ser um nicho de mercado promissor. Praticada há quase meio século em alguns países europeus, nomeadamente em França e na Itália, está só agora a dar os primeiros passos na Península Ibérica. Nos últimos anos, o aumento da procura deste molusco para consumo humano fez com que os métodos de produção passassem a ser semi-industriais.
De uma forma geral, podemos considerar três métodos distintos de produção de caracóis.
Um sistema intensivo de exploração, no qual os animais são criados em bancadas sobrepostas. Estes locais encontram-se completamente fechados e as condições de temperatura, humidade e luz solar são monitorizadas de forma permanente, no sentido de possibilitar um maior número de posturas por ano e assim maximizar os rendimentos.
Um segundo método baseia-se na criação dos animais o mais aproximadamente possível do seu ambiente natural – em canteiros a céu aberto, com sementeiras específicas, a fim de proporcionar o alimento e o abrigo necessários. Este processo de criação apresenta uma taxa de mortalidade muito elevada, pelo que se torna menos rentável economicamente que o anterior.
Por último, e talvez o mais inovador dos métodos de criação de caracóis para consumo humano, é aquele que de alguma forma conjuga os dois métodos anteriormente mencionados. Separa as três fases cruciais da vida de um caracol – postura, eclosão dos ovos e engorda. Deste modo, é possível abordar cada uma das etapas tendo em conta a sua especificidade, melhorando assim a prestação final: maior número de nascimentos e menor número de mortes.


Exigências da criação de caracóis

São de salientar alguns pontos que diariamente devem ser tidos em conta aquando do processo de criação de caracóis:
criação de caracois
Crias de caracóis

- Sanidade: Esta é de extrema importância neste tipo de exploração animal. Humidade e temperatura amena são ambientes ideais para a propagação de doenças
Assim, existe a necessidade de manter as instalações sempre limpas, sem excrementos, restos de alimentos e de animais mortos para, deste modo, evitar ao máximo o aparecimento de doenças. As doenças dos caracóis encontram-se pouco estudadas e, como tal, nem sempre é fácil prever e prevenir patologias. É pois impreterível a máxima higiene das instalações e dos equipamentos.
Bactérias, ácaros e nemátodos são as principais origens das doenças e parasitoses que afectam mortalmente o caracol. As bactérias existem naturalmente no tubo digestivo dos caracóis e causam problemas quando existe uma acumulação de excrementos ou quando a alimentação escasseia. Os ácaros são também perigosos, provocando reduções muito significativas no rendimento das culturas quando se encontram em grandes quantidades nas explorações. Por último, os nemátodos – parasitas que invadem os intestinos e outros órgãos do caracol – provocam, por exemplo, danos no sistema reprodutor deste.

- Condições ambientais: Temperatura, humidade e iluminação. A temperatura ideal para o desenvolvimento do caracol ronda os 200C. Abaixo dos 100C o animal reduz significativamente o seu metabolismo interno, podendo entrar em estado de hibernação.
Acima dos 300C, os caracóis entram em estivação, especialmente se a humidade relativa for baixa. Humidade relativa é outro factor importante para o caracol. Estes preferem valores de humidade relativa entre os 70% e os 90%. No que toca à iluminação, o caracol não gosta que a luz solar incida directamente nele, pois seca-lhe a pele. Desta forma, caracteriza-se por ser um animal que gosta de sombra, mas necessita de 12 a 18 horas de luz solar por dia.

- Maneio diário: Nos cuidados diários há que ter atenção às condições de temperatura, humidade e inspecção dos locais onde permanecem animais, com o objectivo de verificar o seu comportamento e detectar e capturar os animais mortos. Os termómetros devem ser de fácil leitura e de preferência com indicadores de temperaturas máximas e mínimas. De igual modo, os higrómetros devem estar localizados estrategicamente por toda a área. Sempre que necessário, as instalações e equipamentos devem ser lavados, de modo a serem removidos os restos de ração e dejectos dos animais.

 Implementação de sistemas de HACCP
ovos de caracol
Ovos de caracol


No que toca à aplicabilidade da metodologia HACCP como forma de analisar metodicamente todo o processo e de determinar de modo exacto todos os potenciais perigos existentes, conclui-se que:

- São altamente recomendáveis todas as boas práticas descritas anteriormente, actuando estas como medidas de controlo no decorrer dos diversos processos;
- Os terrenos devem ser alvo de um período de descanso e de uma limpeza. A estabilização dos mesmos deve ser efectuada, por exemplo, através da aplicação de cal viva. Desta forma, são possíveis terrenos mais férteis e saudáveis para posteriores engordas;
- É de extrema importância a elaboração de cadernos de encargos, onde são registadas todas as operações diárias realizadas. Só assim é possível executar um tratamento estatístico dos dados e perceber, por exemplo, o efeito das variações climatéricas na biologia do animal. E desta forma melhorar os processos internos;
- Tendo em conta que em explorações intensivas o alimento disposto naturalmente ao caracol é insuficiente, existe a necessidade de complemento alimentar através de ração composta para caracóis. Neste caso, pode ser usado o milho e a soja, não descurando a importância do fornecimento de cálcio;
- Considerando a vulnerabilidade biológica do caracol quando afectado por algum tipo de contaminação biológica, este sucumbe quase de imediato. Daí que não tenha sido identificado nenhum tipo de patogénico alimentar humano em níveis considerados inaceitáveis;
- Em relação às contaminações químicas, aí sim consideraram-se relevantes e com significância elevada. No fundo, estamos a trabalhar num terreno agrícola, onde não conhecemos completamente o passado das terras e, sobretudo, as alterações/contaminações a que estão sujeitos os lençóis de água de abastecimento (por norma o abastecimento de água é realizado através de captações próprias). É importante a monitorização dos valores analíticos deste elemento.

Não descurando a legislação que enquadra o caracol como elemento sujeito a controlo analítico no que respeita à microbiologia (gastrópode vivo), considera-se da maior relevância, do ponto de vista da segurança alimentar, ter igualmente em conta a presença de elementos químicos neste molusco. Como forma de avaliar aquilo que se designa por ponto crítico de controlo (PCC), aconselha-se a realização de uma análise laboratorial a uma panóplia de substâncias químicas – pesticidas (p.ex. piretróides), imediatamente antes de iniciar a apanha do animal para venda. Conseguiremos, assim, ter uma garantia fiável de que aquilo que se irá comercializar é seguro para o consumidor.

Artigo de Fernando Amaro, coordenador técnico de Higiene e Segurança Alimentar

Construção de terrário para caracóis


Espreitar o dia a dia dos caracóis através de um terrário em casa e coleccionar as conchas destes moluscos, vai deixar miúdos e graúdos curiosos, de lupa, de lápis e caderno na mão, de lanterna, levantados de noite... e contem com caixinhas de conchas nos bolsos.


Material necessário:

Terrário para caracóis
Terrário para caracóis

1. Caixa de plástico/vidro transparente (25x15cm aprox.) com tampa perfurada
2. Terra para plantas de vaso, humedecida.
3. Alimento: tiras de cenoura, tomate, brócolos, alface e e folhas de outras verduras.
4. Refúgio húmido: quadrado de papel de cozinha humedecido e amarfanhado.
5. Refúgio obscurecido: pedras e folhas secas.
6. Borrifador de água.
7. Algum caracóis adultos.
8. Conchas.
9. Caixas de fósforos vazias

Preparação:

Terrário para caracóis
Terrário para caracóis
  • Cobrir o fundo da caixa com dois dedos de terra. 
  • Num lado da caixa, colocar o alimento e o papel. No outro lado, criar o refúgio obscurecido.
  • Fazer uma visita ao campo (ou jardim) num dia húmido e recolher alguns caracóis adultos
  • Transportar os caracóis adultos numa caixa com alimento humedecido.
  • Para observar os caracóis, colocá-los numa superfície (transparente) com alimento. 
  • Borrifar para incentivar a sua actividade. 
  • Colocar os caracóis no terrário e fechar a tampa. 
  • Fazer a manutenção do terrário a cada três dias: limpar as paredes, retirar o cocó, borrifar e renovar o alimento. 
  • Mudar o papel humedecido a cada semana.

Curiosidades:
Os caracóis não ouvem, não têm a visão desenvolvida (vêem manchas claras e escuras) e não gostam propriamente do sol. 

Os caracóis gostam de dias húmidos e amenos,  gostam do crepúsculo e da noite porque no escuro são menos visíveis pelos predadores, e porque o seu corpo mole e carnudo não pode ficar seco. 

Para evitar a desidratação o caracol tem o corpo envolvido por um muco que impede que o pé toque na superfície por onde passa (como a sola do sapato) e permite que este deslize facilmente evitando ferimentos.

“O caracol anda com a casa às costas”.
A concha abriga os órgãos e é uma protecção extra contra a desidratação.
Em condições adversas, o caracol recolhe o pé e a cabeça para dentro da concha e pode entrar em dormência. 

Sela a abertura da concha com muco espesso podendo colar-se a uma superfície e é por isso que os encontramos agarrados aos troncos, folhas, ou muros. 

Os caracóis memorizam o sítio onde ficam em dormência e é através do rasto mucoso que voltam a esse local.

A concha do caracol tem ainda outra vantagem: protege-o dos predadores. É dura de partir e é um bom esconderijo quando algum animal (lagartixas, aves, ratos e até insectos) o tenta comer. 

Porém é frequente a concha rachar. Se o dano não for grande é remendada com o muco.

O caracol ainda nos reserva muitas surpresas


É uma lesma ou é uma ostra? Comer caracóis é um acto que divide as pessoas. Mas comem-se cada vez mais e muitos deles já provêm de explorações intensivas. A cosmética descobriu-os, talvez a farmacêutica venha a seguir.

Mesmo neste microclima da região Oeste, o ar fresco e húmido que aqui se respira surge como uma bênção. Acabou de "chover" há alguns minutos e a areia entre os canteiros insiste
em colar-se aos sapatos, num contraste evidente com a secura da terra que ficou do lado de fora. Estamos à sombra, por acção conjunta da colina que se eleva a poente contra o sol e da rede estendida sobre as nossas cabeças. Mas aqui dentro, nesta estufa forrada de vegetação, não é só a frescura que nos assalta os sentidos. Há também o cheiro e o ruído viscoso de milhares de criaturas rastejando. Estamos numa quinta de caracóis.

Lá fora é Julho, aqui dentro respira-se uma Primavera delicada. O sistema de rega acabou de lançar água sobre os canteiros onde milhares e milhares de caracóis estão a sair para se alimentarem. À sua espera, os trevos e couves plantados por mão humana no início da época e todas as outras espécies do mato da região, que cresceram espontaneamente nestas condições de temperatura e humidade ideais. Há também ração, espalhada pelo dono da exploração, uma forma de complementar a dieta dos caracóis e levá-los a crescer a um ritmo mais célere. O objectivo é que alcancem em breve a dimensão ideal para serem comercializados. Ou seja, comidos. E este é um dos temas que mais facilmente dividem os portugueses. Que haja adeptos do Benfica na cidade do Porto e "dragões" assumidos em Lisboa já não espanta ninguém. Que se vote agora PSD e depois PS, ou vice-versa, é coisa que os analistas políticos encaram como uma inevitabilidade no sistema político actual. Mas com os caracóis a coisa fia mais fino. 

Para alguns, eles não passam de lesmas com casca. Outros comparam o sabor ao das ostras, de quem, afinal, são parentes próximos. Dificilmente se encontra um artigo de culinária sobre o qual as posições se extremem tanto: os caracóis amam-se ou odeiam-se. Em Portugal, comem-se essencialmente cozidos, como petisco, mas estão gradualmente a aparecer noutros pratos, à medida que se sucedem as experiências - nem sempre muito felizes, acrescente-se. 

O caracol pequeno servido em restaurantes e tascas, feiras e esplanadas, arraiais e cervejarias vem, essencialmente, de Marrocos. É apanhado à mão por pastores e entregue aos responsáveis de cada aldeia, que servem de agentes do negócio, controlado pela família real. Portugueses, espanhóis, franceses, italianos, gregos. Todos querem uma fatia deste produto de exportação - o consumo em Portugal ultrapassa as 40 mil toneladas anuais. A partir de Julho, em Portugal, começa a haver também caracol nacional, que resiste melhor ao passar do Verão devido às temperaturas mais amenas, por comparação com o Norte de África. 

Theba pisana
Mas este é o mundo do caracol pequeno (espécie Theba pisana). Um mundo que ainda gira à volta do sistema tradicional de apanha na Natureza e posterior encaminhamento para intermediários ou casas comerciais. O seu tamanho reduzido e a sazonalidade do consumo - brilha como um cometa entre Abril e Setembro, mas desaparece nos restantes meses - retiram-lhe interesse do ponto de vista agrícola. Mas o cenário é bem diferente no caso do caracol grande, normalmente conhecido como caracoleta (espécie Helix aspersa), que tem uma produtividade bem mais interessante e se consome todo o ano. 

Bichinhos irrequietos 

São estes os inquilinos dos canteiros que se alinham sob a rede neste vale vigiado por aerogeradores num flanco e árvores do outro, lado a lado com alguns cavalos que pastam ali à volta. Ao todo, são cerca de 3000 metros quadrados, quase metade da área de um campo de futebol, divididos em vários canteiros com corredores de serviço entre eles. Cada canteiro está delimitado por uma rede de cerca de 50cm de altura, barrada, perto do limite superior, por uma substância que parece massa consistente, daquela que se encontra nas peças móveis dos automóveis ou se coloca nas dobradiças das portas, por exemplo. 

Primeira surpresa: este não é um produto standard. É uma fórmula desenvolvida por Luís Lucas, da empresa Hélix Oeste, uma das que, em Portugal, se dedicam à helicicultura. Ou seja, criação e comercialização de caracóis. O violento temporal deste Inverno na zona Oeste arrasou as estufas da empresa - e o mesmo sucedeu com, pelo menos, uma das suas concorrentes, a Escargots Oeste. Enquanto não reata esse lado da sua actividade, Luís Lucas fornece apoio logístico e assessoria aos criadores que lhe compraram caracóis-bebés. 

E é por isso que ele está aqui, vigiando atentamente os canteiros na companhia de Francisco José, proprietário das instalações. E é por isso que responde, com ar casual, que a barra de "massa consistente" é uma barreira química que impede os caracóis - que, como se sabe, são uns animaizinhos irrequietos... - de fugirem dali para fora. E que a "receita" foi inventada por si próprio, culminando um longo processo de experiências sucessivas até acertar com a fórmula ideal. 

"Fazia um círculo com o produto e punha lá dentro dois caracóis, para passarem a noite. Umas vezes fugiam, outras comiam a massa e morriam. Até que, uma manhã, acordei e os dois caracóis estavam no interior do círculo, vivos mas confinados. Percebi que tinha, finalmente, acertado na fórmula..." O produto é feito com massa consistente alimentar e aditivos que repelem o caracol, mas acaba aí a divulgação pública de um segredo que, como tantos outros, pode ser a alma do negócio. 

Posto em prática, este sistema resulta claramente. Nesta exploração perto da praia da Areia Branca, muitos caracóis agarram-se à rede e trepam por ali acima, mas fazem meia-volta mal entram em contacto com a substância inventada por Luís Lucas. Alguns, muito de vez em quando, conseguem encontrar um ponto fraco e passam para o lado de fora, mas aí entra em acção a vigilância cuidada de Francisco José, que depressa os recoloca no canteiro. 

A cobertura vegetal está desbastada para se quedar a pelo menos 30cm da rede, uma forma de evitar outra possível via de fuga dos caracóis: quando se juntam muitos no mesmo caule, não é incomum este ceder ao peso e tombar - um espectáculo normalmente só perceptível pelo som de ramos a raspar e cascas a chocar umas com as outras. Ninguém grita: "Madeira!", mas é difícil não sorrir perante a analogia. 

Para um helicicultor, as contas a fazer são simples: há que contar com cerca de 20 por cento de taxa de mortalidade, especialmente na fase inicial de crescimento. Mas depois, mesmo neste paraíso semiartificial, os caracóis não têm uma vida isenta de riscos. Podem ser vítimas de ratos (que roem o centro da casca, à procura dos intestinos), de pássaros (partem a casca com o bico) ou mesmo de outros caracóis mais agressivos. A única forma de evitar estas cenas de antropofagia é vigiar a exploração e aumentar a dose de ração (de cereal moído) quando se descobrem cascas vazias e sem sinais de agressão exterior. 

Na catedral do caracol 

Os Helix aspersa são apanhados quando chegam ao seu tamanho ideal (18/20g) e seguem depois para armazéns, onde são conservados em câmaras frigoríficas até à viagem final rumo a uma cozinha perto de si. E aí podem ser cozinhados de muitas formas, desde os tradicionais caracóis cozidos à portuguesa até aos internacionalmente afamados escargots à francesa. Passando pela grelha, por feijoada, chili, arroz... 

O chefe português José Avillez não tem dúvidas em considerar que o caracol "é um produto engraçado para explorar novos caminhos", mas também assume que não avança com experiências suas para o menu (no caso, do Tavares, em Lisboa, o restaurante onde exerce). "Já fiz guisado de caracóis, migas de caracóis... o problema é que as pessoas oscilam entre o adorar e o detestar. Não podemos afastar pessoas à partida e, a pensar nisso, não ponho na ementa." 

José Avillez mantém uma regra de ouro: "Quando é bem cozinhado, o caracol transmite mais o seu sabor do que absorve o que está à volta. Se absorver muito, é porque está mal." E é isso o que, no seu entender, acontece com frequência em feiras e arraiais, onde, por esta altura, o bicharoco aparece como estrela do evento. 
Ainda há "muita coisa por descobrir" no universo gastronómico do caracol, mas algumas potencialidades parecem pouco atractivas nos moldes actuais do mercado. É o que acontece com as ovas de caracol, chamadas "caviar branco" ou "caviar da terra". José Avillez apresentou-as uma vez em Madrid, mas pagou 300 euros por quilo... 
Não admira, por isso, que o caracol continue a brilhar principalmente como petisco, onde é mais rentável. É que um pratinho de caracóis representa um convite irresistível a beber uma cerveja, depois talvez um pãozinho para embeber o molho e, já que aqui estamos, por que não acabar a refeição com um prego ou outro petisco de carne, que isto já não são horas de ir para casa fazer jantar... 

Ao contrário do que sucede com os caracóis, os adeptos do bicharoco no prato desatam a sair das tocas assim que o sol começa a apertar. Numa das mais afamadas casas de Lisboa, a cervejaria O Filho do Menino Júlio dos Caracóis, o calendário é rigoroso: começam a servir-se caracóis "em Abril, a seguir à Páscoa, e a época vai até à primeira semana de Setembro", explica Vasco Rodrigues, gerente e "artista" do tempero, uma fórmula secreta que vem do seu pai. 

Como o próprio nome indica, este é um negócio de família. Mas a família alarga-se aos clientes habituais, alguns verdadeiros fanáticos, capazes de "se meterem num avião e virem de Paris para comer caracóis", assegura Vasco Rodrigues. Não estarão cá hoje, mas neste final de tarde em Lisboa, com a temperatura bem acima dos 30 graus e um vento que parece o bafo de um secador de cabelo, a romaria nesta rua da zona oriental de Lisboa começa à hora do costume. 
Às 17h00 chegam os primeiros clientes, às 18h30 já não há lugares vagos e as pessoas inscrevem-se num papel preso junto à porta. Sempre que um novo tacho sai do lume, soa uma sineta. "Há quem espere para apanhar os acabadinhos de sair...", explica o gerente. Lá fora, carros estacionados em segunda fila mostram que o "Menino Júlio" continua a ser tão popular como sempre foi, passado o testemunho de pai para filho. "Quando cozi a primeira panela, chorei todo o dia, a pensar se as pessoas iam acreditar em mim..." 

Ameaçados de extinção 

Aqui não há caracoletas, só caracol cozido. Mas Vasco Rodrigues recomenda sem reservas a quem gosta deles maiores que se dirijam à casa que fica praticamente em frente. Esta franqueza já lhe granjeou, pelo menos, um novo cliente: "O homem queria caracoletas e eu disse-lhe que havia do outro lado da rua. Ele ficou espantado com a minha sinceridade e acabou por ficar. Provou os caracóis e adorou. Sabe, muita gente não gosta de caracóis porque nunca provou..." 

Fora da bacia mediterrânica, o estupor é generalizado quando se percebe que há quem coma estes "vermes". Cá dentro, uma barreira invisível parece estender-se a norte do Mondego - genericamente falando, daí para cima o caracol é um bicho nojento; abaixo dessa linha, um manjar dos deuses. Mas cada pessoa é um caso. José Avillez diz que o caracol o "entusiasma", mas a caracoleta nem por isso. Vasco Rodrigues garante que come "todos os dias" uns bons "quatro ou cinco pratos de caracóis" quando o restaurante pára de os servir, aí pelas 22h. 

Já a bióloga Rolanda Albuquerque de Matos, considerada a maior especialista nacional em caracóis, nunca comeu estes moluscos e dificilmente se vê a fazê-lo. A explicação é simples: "Durante mais de duas décadas cultivei e observei quase diariamente milhares de caracóis, o que os tornou, para mim, animais de estimação. E um animal de estimação não se come!" 
Especies de caracois
Especies de Caracois

Do seu trabalho resultou, nomeadamente, a mais completa listagem das espécies de caracóis que ocorrem em Portugal. "Do total das 152 espécies referidas, 106 são terrestres e 46 de águas doces e salobras. Dessas, 15 não devem ser consideradas como pertencentes à nossa malacofauna, de modo que, à data da publicação, o número de espécies conhecidas de caracóis portugueses era de 137: 94 terrestres e 43 aquáticos", enuncia, em respostas enviadas por email. 

É impossível encontrar este grau de rigor matemático quando se olha à dimensão planetária. Rolanda Albuquerque explica que "há uma estimativa de 35 mil espécies vivas de gastrópodes", mas serão sempre números aproximados. Certezas há quanto ao facto de estes animais se darem melhor em climas tropicais e de serem "um elo importante na cadeia alimentar", por fazerem a ponte entre o mundo vivo e o inanimado. 

Mas esta enorme variedade de espécies de caracol não tem um canal directo para o prato. Na verdade, explica a bióloga, só há em Portugal quatro espécies comestíveis: "Por ordem decrescente de tamanho: a caracoleta (nome científico mais conhecido, Helix aspersa), o maior caracol terrestre português; a caracoleta moura também conhecida como boca-negra na Madeira (Otala lactea); o amarelinho, riscadinho, ou caracol-das-canas, o caracol português mais bonito pela grande variedade de cores que a concha pode apresentar (Cepaea nemoralis); e o caracol a que chamo caracol-das-cervejarias e os apreciadores caracol pequeno (Theba pisana). Um caracol (Helicella virgata) do mesmo tamanho e muito parecido com este último e que pode encontrar-se nos mesmos locais não tem valor gastronómico, pois dizem que é muito amargoso, referido por alguns como caracol-do-diabo." 

A pressão colocada sobre as populações nacionais devido à apanha desenfreada destes animais na época alta (e que antecede a época de desova, no Outono) ameaça a sua sobrevivência. Por outro lado, a importação de espécies do Norte de África coloca igualmente problemas aos caracóis portugueses. Rolanda de Matos: "Toda a espécie no seu local habitual está sujeita a condicionamentos do ambiente, entre eles a existência de predadores, com os quais mantém um equilíbrio." Mas os caracóis importados que se escapam para a Natureza não têm estas condicionantes e, multiplicando-se sem restrições, podem levar a espécie indígena ao desaparecimento. 

E é aqui que entra a helicicultura. Na estufa de Francisco José, onde um melro (um predador de caracóis) conseguiu entrar e se entretém agora a iludir os olhos humanos, metendo-se por baixo da vegetação, fazem-se contas. O helicicultor colocou há três meses nos canteiros meio milhão de crias de caracol; em breve poderá começar a apanhar os maiores, que andarão idealmente à volta das 18/20 gramas de peso. Ou seja, descontando a taxa de mortalidade expectável de 20 por cento, haverá por aqui mais de sete toneladas de caracoletas. 

Estamos a falar de uma receita potencial que pode ir dos 21 mil euros (se vender a um revendedor) aos 35 mil (caso coloque o produto directamente nos restaurantes, a cinco euros o quilo). Mas estes números têm de ser lidos à luz das despesas entretanto feitas e que, contas feitas por alto, no caso de uma exploração deste calibre, andarão por volta dos 12.500 euros. Se tudo correr bem, portanto, é um negócio interessante. 

Mas este é um enorme "se", como pode testemunhar Carlos Candeias, um dos sócios da Escargots Oeste. "O temporal destruiu-nos as instalações, que ocupavam 2600 metros quadrados. Tínhamos 800 mil bebés, foi-se quase tudo; os picos de energia deram cabo das caracoletas que tínhamos no frio para reprodução. Os prejuízos globais foram na ordem dos 100 mil euros. E ainda não veio qualquer ajuda..." 

Excesso de helicicultores 

A miragem de que a criação de caracóis era uma excelente oportunidade de negócio, assim uma espécie de "galinha dos ovos de ouro" que se podia ter como segunda ocupação, durou alguns anos. Os suficientes para, no entender de Luís Lucas, atrair um excesso de helicicultores. E essa oferta, "que já supera a procura", cria dificuldades no mercado e lança as raízes para a desregulamentação de um sector que já de si ainda opera muito sem regras assumidas. 

E é claro que a grande oportunidade de negócio está no outro extremo da cadeia. Os restaurantes que servem caracóis podem pedir por doses de mais ou menos 200 gramas preços que andam à volta dos três, quatro euros (no "Menino Júlio" chega aos cinco). Como um saco de caracóis com cerca de cinco quilos lhes sai por cerca de 11 euros, o negócio é atraente - tanto mais que, lá está, o caracol nunca se come sozinho... O caso das caracoletas é menos impressionante mas também tem que se lhe diga: mesmo que pague cinco euros por quilo ao produtor, um restaurante vende uma dúzia (pouco mais de 200g) por 2,5 a três euros. 

Actualmente, o mercado nacional absorve praticamente toda a produção nacional. Luís Lucas estima que talvez alguma caracoleta "menos boa acabe nas fábricas espanholas", mas a exportação não se mostra rentável porque os preços pagos lá fora são semelhantes e as despesas de transporte seriam muito maiores. É também importante garantir que os caracóis não demoram demasiado tempo a chegar à maturação. Francisco José está preocupado: "Estou mesmo a ver que vou ter caracol quando o preço começar a baixar..." 

O processo começou há meses, quando os caracóis seleccionados foram colocados em tabuleiros de reprodução (na verdade, metade deles não resistiu à hibernação, pelo que a selecção natural torna-se ainda mais intensa). Chegados a esta fase, os caracóis estão no seu nirvana. Como são hermafroditas, a sua vida sexual é muito colorida. Desde que se cruzem, ambos podem pôr ovos, pormenor que muito há-de agradar aos seus "donos"... 

Os ovos demoram 17 dias a germinar em incubadoras e os bebés são depois vendidos aos helicicultores. 

Cada vez mais na moda 

Daí para o prato, vai ainda uma longa história. Feita de paciência e risco, de inteligência e dedicação. Com uma vantagem enorme no horizonte: o caracol está cada vez mais na moda. Os gastrónomos salientam o seu valor alimentar (tem as mesmas calorias do peixe e só metade da gordura, mas sete vezes os sais minerais) e as redes de distribuição começam a colocar no mercado produtos congelados prontos a cozinhar. 

Mas a maior revolução veio da indústria cosmética, que descobriu os benefícios da baba deste molusco, dotado, ao que dizem, de impressionantes qualidades de regeneração da pele. Responsáveis da Cherry Blue, uma das empresas que comercializam este produto, não julgaram conveniente prestar quaisquer esclarecimentos sobre a dimensão do negócio, mas a consulta ao sitede uma parafarmácia especializada em emagrecimento, desporto e saúde devolve pelo menos 11 produtos à base de baba de caracol, desde cremes de rosto a champôs para o cabelo. E isto pode ser apenas o início. 

A baba de caracol é obtida stressando os animais - com calor, nomeadamente. Colocados em cubas giratórias, os caracóis segregam baba até praticamente à exaustão e aquela escorre para reservatórios onde é depois purificada, num processo que pode ser comparado à pasteurização do leite. É muito cara - pode atingir preços de mercado entre os 250 e os 450 euros por litro -, mas trata-se da fonte mais pura de proteína que se detectou até hoje na Natureza: "É proteína pura; a soja tratada só chega aos 42 por cento", enuncia Luís Lucas. 

Para este inspector de aeronáutica civil que deixou o emprego após o 11 de Setembro de 2001 para se dedicar ao seu sonho de ser helicicultor, os caracóis são bem mais do que uma mera forma de fazer negócio. São uma paixão. Confessa que gostava de ver estudada a influência do caracol quando introduzido na dieta de pessoas na terceira idade e não tem dúvidas sobre o que o futuro nos trará: "Penso que a seguir à cosmética virá a indústria farmacêutica. O caracol ainda nos reserva grandes surpresas."
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